Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
Paira à tona da água
Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.
Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,
Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.
É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...
(Fernando Pessoa)
Paraty-Brasil
Março de 2012
Sábado, 21 de Janeiro de 2012
Entre o luar e o arvoredo
Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.
Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.
Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro
Nota:
Um segredo... esta foi a primeira foto em que usei photoshop, depois do meu amigo Miguel ter tido a paciência de me dar numa horita algumas dicas.
Ainda não parei de treinar, vamos ver se continuo, mas que é viciante, lá isso é. Esta fiz sozinha, nem sei avaliar da qualidade ou da falta dela.
Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
Em meus momentos escuros
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
(Fernando Pessoa)
Óbidos-Novembro de 2011
Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011
Momentos a P&B
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
(Fernando Pessoa)
Segunda-feira, 6 de Junho de 2011
Viver e ver somente
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
(Fernando Pessoa)
Zambujeira do Mar
Segunda-feira, 30 de Maio de 2011
Paira à tona da água
Paira à tona de água Uma vibração, Há uma vaga mágoa No meu coração.
Não é porque a brisa Ou o que quer que seja Faça esta indecisa Vibração que adeja,
Nem é porque eu sinta Uma dor qualquer. Minha alma é indistinta Não sabe o que quer.
É uma dor serena, Sofre porque vê. Tenho tanta pena! Soubesse eu de quê!...
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(Fernando Pessoa)
Lagoa de Óbidos
Maio de 2011
Sexta-feira, 29 de Abril de 2011
Tudo o que não sei...
Bendito seja eu por tudo o que não sei, gozo tudo isso como quem sabe que há o sol
(Fernando Pessoa)
Praia do Rio Cortiço-Óbidos
Abril de 2011
Terça-feira, 29 de Março de 2011
A Flor que és
A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor!
Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perere
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.
Fernando Pessoa-Ricardo Reis
Domingo, 27 de Março de 2011
Tudo em silêncio se desfaz
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo.
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz
Quinta dos Cucos. Torres Vedras
Março de 2011
Quarta-feira, 9 de Março de 2011
Vontade de viver
Não importa se a estação do ano muda...
Se o século vira, se o milénio é outro.
Se a idade aumenta...
Conserva a vontade de viver,
Não se chega a parte alguma sem ela."
Fernando Pessoa
Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011
Contemplo o que não vejo...
Contemplo o que não vejo. É tarde, é quase escuro. E quanto em mim desejo Está parado ante o muro. Por cima o céu é grande; Sinto árvores além; Embora o vento abrande, Há folhas em vaivém.
Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.
Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.
(Fernando Pessoa)
Domingo, 13 de Fevereiro de 2011
E tudo o vento levou
Como um vento na floresta. Minha emoção não tem fim. Nada sou, nada me resta. Não sei quem sou para mim.
E como entre os arvoredos Há grandes sons de folhagem, Também agito segredos No fundo da minha imagem.
E o grande ruído do vento Que as folhas cobrem de som Despe-me do pensamento : Sou ninguém, temo ser bom.
|
(Fernando Pessoa)
Parque Rainha D. Leonor-Caldas da Rainha
Fevereiro de 2011
Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011
Sentir tudo de todas as maneiras
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
Fernando Pessoa
11 de Janeiro de 2011
Domingo, 9 de Janeiro de 2011
Vai uma nuvem errando...
Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.
O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.
E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.
Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.
Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.
(Fernando Pessoa)
9 de Janeiro de 2011
Sábado, 8 de Janeiro de 2011
Contemplo o lago mudo
Contemplo o lago mudo
que a brisa estremece
Não sei se penso em tudo
ou se o tudo me esquece
O lago nada me diz,
não sinto a brisa mexe-lo
Não sei se sou feliz
nem se desejo sê-lo
Trémulos rincos risonhos
na água adormecida
porque fiz eu dos sonhos
a minha única vida?
Fernando Pessoa
Lagoa de Óbidos
8 de Janeiro de 2011
Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
Isto?...É bom.
Isto
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Fernando Pessoa
Sábado, 13 de Novembro de 2010
O Outono que colhi


No entardecer da terra
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono.
Na lívida solidão.
Soergue as folhas e pousa,
as folhas a revolver
e esvai-se outra vez
Mas a folha não repousa,
E o vento lívido volta
E expira na lividez.
Eu já não sou quem era;
O que sonhei, ....
E até do que hoje sou
Amanhã direi, quem dera voltar a sê-lo!
Fernando Pessoa
Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010
Mulher estátua em Tomar
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