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Existe um Olhar

Não te preocupes com os que não te conhecem, mas esforça-te por seres digno de ser conhecido. (Confúcio)

Existe um Olhar

Não te preocupes com os que não te conhecem, mas esforça-te por seres digno de ser conhecido. (Confúcio)

Pelo Tejo vai-se para o mundo

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 O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, 
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia 
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. 
O Tejo tem grandes navios 
E navega nele ainda, 
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
A memória das naus. 
O Tejo desce de Espanha 
E o Tejo entra no mar em Portugal. 
Toda a gente sabe isso. 
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia 
E para onde ele vai 
E donde ele vem. 
E por isso porque pertence a menos gente, 
É mais livre e maior o rio da minha aldeia. 
Pelo Tejo vai-se para o Mundo. 
Para além do Tejo há a América 
E a fortuna daqueles que a encontram. 
Ninguém nunca pensou no que há para além 
Do rio da minha aldeia. 
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. 
Quem está ao pé dele está só ao pé dele. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XX" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

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O que diz o meu olhar

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O meu olhar é nítido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando pra direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança, se ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Alberto Caeiro

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Quando se abre a janela

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 Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro

 * Para os meus amigos, desejo um feliz 2017, que todas as janelas se abram e consigam concretizar os vossos sonhos. 

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É uma leve brisa que passa

Foi uma brisa que passou

 

 

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

 

Alberto Caeiro

 

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Não basta abrir a janela

Não basta abrir a janela

Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro

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As bolas de sabão

Bolinhas de sabão

As bolas de sabão que esta criança

Se entretém a largar de uma palhinha

São translucidamente uma filosofia toda.

Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,

 

Amigas dos olhos como as coisas,

São aquilo que são

Com uma precisão redondinha e aérea,

E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,

Pretende que elas são mais do que parecem ser.

 

Algumas mal se vêem no ar lúcido.

São como a brisa que passa e mal toca nas flores

E que só sabemos que passa

Porque qualquer coisa se aligeira em nós

E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro

 

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A minha descoberta de todos os dias

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A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Alberto Caeiro

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Como num dia de Verão

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa      
E espreita para o calor dos campos com a cara toda, 
      Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa 
     Na cara dos meus sentidos,
      E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber 
      Não sei bem como nem o quê...

     Mas quem me mandou a mim querer perceber? 

       Quem me disse que havia que perceber?

     Quando o Verão me passa pela cara  

    A mão leve e quente da sua brisa,

     Só tenho que sentir agrado porque é brisa

     Ou que sentir desagrado porque é quente,

     E de qualquer maneira que eu o sinta,   

   Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

 

Alberto Caeiro

Rio Mondego em Caldas da Felgueira

 

 

 

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A olhar daqui para lá

O meu olhar é nitido como um girrassol

Tenho o costume de andar pelas estradas

 Olhando pra direita e para a esquerda,

 E de vez em quando olhando para trás...

 E o que vejo a cada momento

 É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

 Sei ter o pasmo essencial

 Que tem uma criança, se ao nascer,

 Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

 Para a eterna novidade do Mundo...

Alberto Caeiro
 
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Não basta abrir uma janela

 

Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

 
Alberto Caeiro
 
Janela da torre de menagem
Vila Velha de Rodão
Setembro de 2012
 
 
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